Restrições de vestimentas na Umbanda


Restrições de vestimentas na Umbanda

Buscando aumentar meu leque de conhecimento sobre a Umbanda, resolvi visitar alguns terreiros, para aprender mais sobre os rituais, liturgia e lições repassadas aos seus frequentadores. Que a Umbanda é riquíssima com suas variações aplicadas em cada terreiro, é fato. Porém, algo chamou minha atenção: restrições nas vestimentas dos frequentadores.
Alguns terreiros fixam cartazes com suas restrições: evitem o uso de roupas pretas, curtas, decotes, shorts, bermudas, minissaias, camisetas regatas, etc. Isso quando, em alguns casos, trocam a palavra “evitem” por “é proibido”.
Tentando entender qual a influência da vestimenta em um ritual e ver se há um fundamento aplicável a isso, resolvi estudar um pouco mais sobre o tema.

1.      Roupas curtas ou provocantes

Certa vez, um sacerdote disse que, se os católicos se vestem com suas melhores roupas para ir à missa, o mesmo deveria ser feito pelos umbandistas, quando fossem em um terreiro.
Ele só se esqueceu de que a Umbanda, tirando o sincretismo e algumas orações, não tem nada a ver com o catolicismo. O que lá se aplica, não vale aqui. A Umbanda já tem seus fundamentos próprios, não sendo necessários os de outras religiões. E, por outro lado, estamos no séc. XXI, onde não há como dizer qual é a melhor roupa para cada pessoa vestir, pois cada uma veste aquilo que a faz se sentir bem.
Vivemos, além disso, em um país tropical, de clima agradável, que favorece o uso de roupas curtas que permitem o conforto das pessoas. Caminhando por qualquer cidade deste país, vemos as pessoas usando shorts, bermudas, minissaias, regatas, mini blusas, etc., cotidianamente. O uso comum não faz algo ser sexualmente provocativo.
E temos aqui um paradoxo: se por um lado é proibido o uso de vestimentas curtas que deixam quase à mostra partes do corpo, como os seios e partes das nádegas ou pernas, de outro lado temos o índio, a grande força de sabedoria umbandista, que andava, e ainda anda, nu. A pergunta que faço para terreiros com restrições é: e se um índio verdadeiro, e nu, for assistir uma gira?
Se o problema for outro, onde o uso de roupas provocantes tira a concentração de um médium, neste caso é melhor conversar com todos. É a concentração que faz com que a incorporação seja funcional. Não li, e nem ouvi dizer, em nenhuma vez, que o Chico Xavier perdeu a concentração por causa da roupa de quem quer que fosse.
Há, ainda, outro fator a ser levado em conta: o constrangimento da pessoa que não sabia da restrição. Já vi oferecer, à pessoa em questão, xales ou jaleco para cobrir um decote ou uma calça curta. Presenciei, inclusive, o sacerdote pedindo que uma mulher se retirasse do terreiro por estar usando uma roupa inadequada. Neste caso, o terreiro deixou de valer o motivo pelo qual milita: não virar as costas a ninguém!

2.      Roupa preta

Da observação e experiência, o homem percebeu que o uso da roupa preta esquenta muito mais o corpo do que uma roupa branca. Por analogia, se o preto absorve o calor, então ele absorve outras coisas.
Esse é um erro comum de raciocínio, onde a lógica nem sempre funciona de maneira aparentemente linear.
Segundo Sheldrake [FOX, Mattew; SHELDRAKE, Rupert. A Física dos Anjos. Ed. Aleph. 2008],  
(...) a criação da luz (por Deus) necessariamente envolve a criação da escuridão, a separação entre luz e escuridão. E é essa a natureza da luz como a entendemos. A luz envolve uma polaridade de luz e de escuridão. O movimento de onda da luz leva a caminhos alternados de luz e escuridão quando dois feixes de luz interferem um no outro. A luz é formada por ondas. Um lado é luz; o outro, escuridão. (...) A escuridão é necessária para que a luz seja reconhecida. Toda percepção depende do contraste.
Veja que a luz caminha juntamente com a escuridão, sem que, com isso, seja absorvida.
            Indo além, o universo é constituído, em mais de 80%, de matéria negra, aquela que vemos preenchendo o espaço entre as estrelas e planetas todas as noites, e ainda assim, essa matéria negra não absorve nem luz nem energia, senão não seria possível ver as estrelas e nem sentir o calor do Sol, por exemplo. Então, se no planeta Terra a cor preta dos tecidos absorve calor e dificulta a reflexão da luz, não é por isso que ela absorve luz e energia que vem dos guias espirituais ou da força dos Orixás.
Por outro lado, em alguns textos místicos e espiritualistas, vemos que a cor preta é usada como proteção, purificação, servindo de defesa a males externos como inveja, praga e mau olhado, tendo um efeito capaz de isolar e neutralizar, ou até mesmo potencializar, a influencia de outras cores, pois é utilizado como contrastante.
            Não podemos esquecer que temos, também, os Exús e Pombagiras, que sabem trabalhar e utilizar a cor preta com maestria, justamente na neutralização, potencialização e isolamento de efeitos nocivos aos médiuns e consulentes.
           
3.      Conclusão

Não vi nenhum fundamento nas restrições das vestimentas das pessoas. Aliás, analisando as informações encontradas, percebi problemas nestas restrições. Tais problemas ferem diretamente as bases da Umbanda, como “a pratica da caridade sem olhar a quem”, ou “respeitar a todos, sem preconceitos”.
O que me preocupa, com a proibição de utilizar determinadas roupas em um terreiro é de que, indiretamente, fere àquela pessoa que faz uso dessa vestimenta, o que vai ao encontro com a discriminação, a mesma que fere a nossa Umbanda.
Espero que, com este texto, os sacerdotes de cada um dos terreiros que mantém tais restrições, se possível, respondessem mais profundamente às questões de restrições, enviando suas críticas e sugestões ao e-mail: newton.utf@gmail.com. Escreverei mais sobre o assunto, assim que tiver mais material disponível, me retratando ou afirmando tais teorias e fundamentos.